quinta-feira, 14 de agosto de 2014

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

SEDAÇÃO EM ODONTOLOGIA – UMA REFLEXÃO

Prof. Dr. Jorge Liporaci
Doutor em Ciências Médicas pela FMRP-USP na área de concentração: Ação dos Métodos e Técnicas de Analgesia e Anestesia
Coordenador da Especialização em Implantodontia e do Aperfeiçoamento em Cirurgia Buco-Maxilo-Facial da APCD-RP

De uma maneira geral, o Cirurgião-Dentista está acostumado a lidar com pacientes ansiosos em relação ao tratamento odontológico. Cerca de 90% da população possui graus variados de “ansiedade odontológica”, sendo que 15% destes possuem níveis extremos de medo e pânico que os impedem de acessar o tratamento prejudicando em muito sua saúde bucal e geral.
Esta parcela importante da população merece uma atenção especial, pois este é um problema inclusive de saúde pública. O medo destas pessoas é decorrente em parte, da deficiência de conhecimento e treinamento de muitos profissionais da nossa classe para tratar tal problema, seja por métodos cognitivos comportamentais ou por vias medicamentosas. É obrigação do Cirurgião-Dentista minimizar o medo e a ansiedade odontológicas utilizando de diversas vias (as quais evidentemente exigem um treinamento específico).
Tenho recebido em meu consultório pacientes que buscam especificamente a sedação inalatória com óxido nitroso, como se isso fosse a solução de todos os problemas. O que muitos pacientes (E PROFISSIONAIS!!!) não sabem é que a sedação consciente inalatória NÃO ELIMINA A NECESSIDADE DE ANESTESIA LOCAL, e muitos acreditam realmente que vão “apagar e não ver nada na cirurgia” com o uso deste método. Cerca de 3% dos pacientes com ansiedade extrema não conseguem ser sedados por nenhum tipo de método, estando indicada a anestesia geral nestes casos.
Recentemente 2 casos chamaram muito minha atenção e me inspiraram a escrever esta reflexão para compartilhar com os colegas de classe.
O primeiro foi de um rapaz de 23 anos que entrou em estado de pânico (desespero, choro e agonia) já no pré-operatório antes da anestesia local, mesmo estando sob efeito de 15 mg de midazolam. O mesmo não permitiu sequer a tentativa de anestesia devido a uma expectativa de que “algo ruim iria acontecer”. Após a utilização de técnicas cognitivas e comportamentais para complementar a sedação medicamentosa que consumiram 60 minutos (E MUITA PACIÊNCIA POR PARTE DA EQUIPE), o procedimento foi realizado com êxito, tendo sido extraído os 4 terceiros molares em um tempo confortável para o paciente (30 minutos). Ainda que as extrações tecnicamente fossem “simples”, nota-se a necessidade de um nível mínimo de habilidade para executar o trabalho com uma velocidade maior (DIFERENTE DE PRESSA), isto é fundamental para estes pacientes muito ansiosos, de maneira a finalizar o procedimento o quanto antes para minimizar seu desconforto.
O segundo caso ainda não aconteceu. Ou seja, uma paciente de outra cidade contatou a nossa clínica interessada em realizar sua cirurgia de extração de terceiros molares sob sedação inalatória. Mas seu nível de pânico é tamanho que para realizar a consulta de avaliação conosco a mesma está fazendo um tratamento psicológico antes. A despeito da dor que esta paciente está sentindo, pois possui um dos dentes com cárie e pulpite, seu medo extremo de Dentista e do procedimento estão impedindo de se beneficiar do tratamento.
Fica a seguinte reflexão para os colegas: É culpa do paciente este medo? Quais foram as experiências negativas vividas por eles, ou mesmo por pessoas próximas como pais, irmãos, amigos, etc...que fazem com que a maioria das pessoas ODEIEM O DENTISTA?
Será que as experiências desconfortáveis que a população passa diariamente nos consultórios não contribuem para um consenso de que o tratamento odontológico é um mal necessário? Quantos de nós já não ouvimos de pacientes a seguinte frase: “Odeio Dentista!” ????
O que para nós profissionais pode ser um medo sem sentido (como uma “simples picadinha”), para nosso paciente pode ser o fim dos tempos. Ignorar os pequenos desconfortos das pessoas têm um efeito cumulativo na percepção geral de que realmente ir ao Dentista não é algo agradável.
O fato é que quando nós ganhamos a confiança do nosso paciente este medo vai se dissolvendo com o passar do tempo e à medida que provamos para o paciente que o tratamento pode e deve ser indolor, pois NÃO EXISTE PROCEDIMENTO DOLOROSO E SIM, DOR MAL TRATADA.
Para realizar a sedação (mesmo pela via oral) é preciso um treinamento específico que inclui habilitação no atendimento de emergências médicas. Mas afirmo com total segurança para os colegas que: a falta de sedação gera mais emergências médicas do que o ato de sedar (uma vez que 75% das emergências médicas em odontologia são decorrentes de stress e ansiedade, sedar significa prevenir as emergências).
É culpa nossa este medo dos pacientes. Nós precisamos estar sempre estudando, aprimorando, buscando o conhecimento, desenvolvendo novas habilidades (tanto técnicas como emocionais) para lidar com esta importante parcela da população e, dessa forma, mudarmos aos poucos este paradigma negativo com relação ao tratamento odontológico.
Fica a pergunta: O que você faz diariamente com seus pacientes para dar maior conforto durante o tratamento odontológico? O que você poderia fazer melhor e ainda não fez? Se ainda não fez, o que te impede de fazer?

Indicação de literatura sobre sedação:
1.   Malamed S. Sedation: A guide to patient managment. 4 ed. Editora Mosby. 2003
2.   Teixeira M et al. Dor: Contexto multidisciplinar. 1 ed. Editora Maio. 2003.